Assassin’s Creed: Valhalla review – Simulação Inconstante

Há muito que a saga Assassin’s Creed deixou de ser sobre assassinos e passou a ser sobre a realização de fantasias. Um pouco como a premissa de Westworld, os últimos jogos da saga são como um parque de diversões temático, que levam os fãs para diferentes épocas e locais. Esta transformação começou com Assassin’s Creed Origins, uma fantasia egípcia, solidificou-se com Assassin’s Creed: Odyssey, uma fantasia grega, e regressa novamente com Assassin’s Creed: Valhalla, uma fantasia viking.

A história da Assassin’s Creed tornou-se numa mera nota de rodapé no grande plano e, para que conste, não estou nada incomodado. Quando uma saga dura há tanto tempo como esta – o primeiro Assassin’s Creed é de 2007, a mudança de identidade é inevitável. A criatividade tem limites e é preciso injectar novas ideias, conceitos e mecânicas para viabilizar novos jogos. A nova perspectiva de Assassin’s Creed como um parque de fantasias históricas é óptima e permite à Ubisoft ter combustível para um grande leque de novos jogos.

Encostando-se ao sucesso de séries sobre Vikings como “Vikings” do Canal História e “The Last Kingdom” da Netflix, a Ubisoft criou uma narrativa para Assassin’s Creed: Valhalla que nos leva desde a Noruega para a Grã-Bretanha durante as invasões dos vikings. A fantasia é potenciada pela interacção com personagens que já conheces das séries que acabei de referir, como os filhos de Ragnar e o Rei Alfred de Wessex. Até o deus nórdico Odin aparece nas visões da tua personagem, tal como aparecia a Ragnar na série Vikings.

Quanto maior, melhor?

Tal como os seus antecessores, Assassin’s Creed Valhalla é um jogo enorme que facilmente passa a marca de 100 horas se estiveres disposto a isso. Terminado o capítulo de introdução da Noruega, em que conheces a história e a motivação de Eivor (o nome da tua personagem, independentemente do sexo que escolhas), vais para a Grã-Bretanha onde começas a construir uma aldeia, a criar alianças com outros vikings já instalados no território, e a expandir a tua influência e poder completando missões para personagens importantes.

This content is hosted on an external platform, which will only display it if you accept targeting cookies. Please enable cookies to view.

O mapa é gigantesco e está dividido de acordo com a época: Wessex, East Anglia, Mercia e Northumbria. Eventualmente a progressão da narrativa levar-te-á a visitar cada um deles, mas é um processo demorado. Além disso, cada território tem um nível de poder recomendado, o que significa que inicialmente a tua personagem será demasiado fraca para enfrentar os inimigos dos outros reinos. Não é nenhuma surpresa para quem tenha jogado os dois títulos anteriores, já que funcionavam da mesma forma. Embora seja um jogo de acção, a progressão está desenhada como um RPG. Por melhores que sejam os teus reflexos de contra-ataque e de esquiva, um inimigo de maior nível do que tu pode derrotar-te num ou dois golpes.

“Assassin’s Creed Valhalla é um jogo enorme que facilmente passa a marca de 100 horas se estiveres disposto a isso”

O sistema de progressão é tão grande como o próprio jogo. A cada nível que sobes ganhas dois pontos para investir na árvore de habilidades, ordenada como se fosse um conjunto de constelações. Estes pontos determinam o poder da tua personagem e desbloqueiam variadas habilidades. Cada caminho – vermelho, amarelo ou azul – está associado a uma área diferente: vermelho significa combate, amarelo arco e flecha, e azul stealth. Fora isto, a tua personagem pode ainda aprender Aptidões, que são o equivalente a ataques especiais. As aptidões são desbloqueadas a encontrar livros espalhados pelo mundo, sinalizados como um tesouro.

Há territórios que recomendam nível 260, o que efectivamente significa que precisas de subir aproximadamente 130 níveis antes de poderes explorá-los confortavelmente. Isto deve dar-te uma ideia da magnitude de Assassin’s Creed Valhalla. Não esperes terminá-lo em 20, 30 ou sequer 40 horas. Obviamente, a longevidade de um jogo pouco importa se passadas algumas horas se torna aborrecido ou se o ciclo de exploração é demasiado repetitivo. Assassin’s Creed Valhalla não é perfeito nesta questão. Há melhorias em relação aos jogos anteriores, mas também ainda há coisas por afinar.

Um mapa enorme e com paisagens diversificadas

O mapa de Assassin’s Creed Valhalla é um triunfo. A Grã-Bretranha tem paisagens naturais incríveis e isso reflecte-se no jogo com uma grande diversidade de biomas. Pela manhã os rios serpenteados estão cobertos de neblina, enquanto os raios de sol se mostram magníficos por entre as árvores com ramos carecas. Pelo final da tarde, há florestas de folhas laranjas e vermelhas que ganham mais vida com os últimos raios de sol. Por entre as paisagens naturais há muitas aldeias, igrejas e ruínas que mostram a marca do Império Romano quando se instalou no território.

“A Grã-Bretranha tem paisagens naturais incríveis e isso reflecte-se no jogo com uma grande diversidade de biomas”

Há sempre qualquer coisa no horizonte que capta a tua atenção, principalmente os pontos mais altos. A mecânica de subir a picos para fazer a sincronização, marcando no mapa os pontos de interesse na área em redor, continua presente. Mas, a forma de explorar, está diferente, assumindo a forma de pontos luminosos. Conforme a cor, tens uma ideia do que esperar. Um ponto dourado significa que tens um tesouro – podem ser recursos para expandires a tua aldeia, novas armas ou aptidões (são ataques especiais) – enquanto um ponto prateado marca uma missão secundária, geralmente bizarra (ajudei um casal a apimentar a sua vida amorosa, destruindo e incendiado a casa – foram eles que pediram, ok?).

This content is hosted on an external platform, which will only display it if you accept targeting cookies. Please enable cookies to view.

Não sentes que o mapa está inundando de coisas para visitar, coleccionar ou fazer como em Assassin’s Creed Odyssey, mas ainda existem bastantes actividades opcionais ou secundárias. Facilmente podes perder horas só a “limpar” uma área do mapa. No entanto, a nova categorização de actividades secundárias dá-te uma expectativa do que esperar e de gerir o teu tempo. As missões secundárias são sempre curtas, mas altamente interessentes. Já os tesouros são demasiado abundantes e frequentes. Isto acontece porque os recursos necessários para expandires o teu acampamento estão categorizados como pontos dourados, estando misturados com Aptidões e Equipamentos Raros.

As Bugcursões aos Mosteiros

Não há nada que um Viking goste mais do que assaltar mosteiros cheios de riquezas. Em Assassin’s Creed Valhalla as incursões são uma parte essencial de reunir recursos para expandir a tua aldeia e funcionam da seguinte forma: enquanto navegas de barco pelos vários rios do mapa, há mosteiros sinalizados a vermelho onde passando por lá podes iniciar uma incursão. São momentos de combate com numerosos inimigos onde arrombas portas para sacar os tesouros bem guardados. Embora estes supostamente sejam os momentos mais épicos e que encarnam melhor o espírito viking, na realidade acabam por mostrar as debilidades do jogo. Assassin’s Creed Valhalla tem muito por polir.

São raros os momentos de combate sem algum tipo de erro. Testemunhei soldados a lutar sozinhos contra o vazio, e a morrer em seguida. Outros soldados ficam simplesmente parados, enquanto outros têm comportamentos erráticos. A inteligência artificial, sejam dos nossos companheiros ou dos adversários, é simplesmente horrível e irrealista, provocando constantes quebras de imersão. O combate também não está isento de problemas. Há muita animações robóticas, pouco naturais e, apesar do jogo correr a 60 FPS na PS5 e Xbox Series X (ou perto disso), não sentes a mesma fluidez de outros jogos. A potencialidade para um jogo grandioso existe, temos vislumbres disso, mas a qualidade inconstante, um problema já conhecido dos jogos da Ubisoft, quebram constantemente esta fantasia viking.

This content is hosted on an external platform, which will only display it if you accept targeting cookies. Please enable cookies to view.

Um grandioso jogo, com erros constantes

Ultimante, Assassin’s Creed Valhalla é um jogo que nos deixa divididos. A Ubisoft criou um ciclo de exploração e combate envoltos numa narrativa viking que nos deixa com vontade de jogar mais, mas depois, somos constantemente lembrados do quão inconstante é a qualidade do que nos é apresentado. Tal coisa seria mais desculpável se estivessemos perante um jogo revolucionário, mas tão pouco é esse o caso. Assassin’s Creed Valhalla é uma pequena evolução da fórmula de Assassin’s Creed Odyssey. De facto, temos um mapa novo que é enorme e lindíssimo, mas muitos dos elementos de Valhalla já estavam pré-feitos, pelo que seria de esperar uma experiência muito mais polida.

“Muitos dos elementos de Valhalla já estavam pré-feitos, pelo que seria de esperar uma experiência muito mais polida”

Se gostaste da experiência de Origins e/ou de Odyssey, é garantido que vais gostar de Assassin’s Creed Valhalla. Além disso, a proposta do jogo permanece única: um jogo em mundo aberto de temática Viking. Não existe nada semelhante no mercado, ainda que a fórmula seja uma repetição do que a Ubisoft já fez em jogos anteriores da série. Pelo lado positivo, qualquer jogo hoje em dia pode ser melhorado após o lançamento e esperemos que isso aconteça com Valhalla. O jogo só tem a ganhar com actualizações que possam tornar a experiência mais polida.

Prós: Contras:
  • O mapa é enorme e cheio de diversidade
  • Uma grande história, dividida em vários capítulos
  • Missões secundárias interessantes e por vezes hilariantes
  • Tem todos os elementos de uma fantasia viking
  • Sistema de progressão com muita evolução
  • É uma evolução perante Odyssey…
  • Os tesouros são tão abundantes que deixam de ser tesouros
  • A IA é muito má, com comportamentos estúpidos e erráticos
  • Os erros constantes prejudicam a imersão e qualidade da experiência
  • … mas joga muito pelo seguro
Share