Tokyo Mirage Sessions FE – Review – Nascidos para a música

Entretenimento pop.

O conceito é bom e interessante mas falta um melhor aproveitamento de Fire Emblem e as novidades desta edição revelam-se subtis.

Originalmente publicado como exclusivo da Nintendo Wii U e “spin of” lato da série Shin Megami Tensei (da Atlus), Tokyo Mirage Sessions regressa três anos depois ao domínio híbrido da Nintendo, em forma de “Encore”. Vale lembrar que o jogo encerra um “crossover” de duas famosas séries: Shin Megami Tensei e Fire Emblem, as iniciais que podem ser lidas no título. Não equivale isto, porém, a encontrar na máxima amplitude ambas as séries, visto que ainda é a forma o conceito e a estética da Atlus que assumem a dianteira. Na verdade, quase todo o jogo é uma espécie de Shin Megami Tensei, um título “idol pop” repleto de música, actores e modelos do entretenimento nipónico. É um mundo em crescendo no Japão, numa Tokyo moderna onde planos diferentes se intersectam, ao ponto de projectar as personagens para um mundo disruptivo.

O lado mais susceptível de Tokyo Mirage Sessions é que apesar da integração da série Fire Emblem no seu âmago, a produtora Intelligent Systems pouco contribuiu para o desenvolvimento, não se podendo falar de um “crossover” de mecânicas ou jogabilidades. Este é um título essencialmente desenvolvido pela Atlus, que transpira uma arte e um level design facilmente reconhecido. Há evidentes aproximações a Shin Megami Tensei e também a Persona. Mas enquanto que nesta série a Atlus conseguiu injectar uma frescura e criatividade ao ponto de dar um avanço significativo no género jrpg com Persona 5, aqui o alcance não é tão grande. Substancialmente inferior ao jogo da Atlus publicado no nosso território em 2017, Tokyo Mirage Sessions é, não obstante, um jogo trabalhado, capaz de provocar momentos entre o razoável e o bom, mas francamente aquém do melhor que já jogámos pela mão da Atlus.

Tokyo moderna e sobrenatural

O ambiente e toda a composição associada é um dos pontos mais consistentes de Tokyo Mirage Sessions. Na abordagem realista a Tokyo vemos apresentadas localidades facilmente reconhecidas. É em Shibuya e Harajuku que decorre a maior parte da acção, para além das tradicionais masmorras. As personagens principais são Itsuki Aoi, um adolescente pouco interessado no fenómeno da música pop mas que acaba por se ligar por via de Tsubasa Oribe, uma colega apostada em subir nos rankings mediáticos da música, especialmente depois do misterioso desaparecimento da irmã.

O resultado é um bilhete de acesso à “idolosfera”, um mundo onde militam outros protagonistas e com os quais formarão uma equipa ou party que irá lidar com criaturas de uma realidade alternativa, um território habitado pelos mirages, monstros que sugam dos humanos uma habilidade chamada “performance”. É uma história com uma grande dose de sobrenatural, como é normal nos jogos da Atlus. Nada aqui é muito diferente na estrutura, apenas se destaca a entrada das personagens Fire Emblem. Eles são, de início, Chrome e Caeda, preciosos aliados de Itsuki e Tsubasa. Ambos se transformam em potentes armas, garantindo poderes especiais a usar nos confrontos em batalhas por turnos, ao bom estilo jrpg.

1 Shibuya e Harajuko, distritos icónicos de Tokyo.

A história está longe de garantir o impacto de outras narrativas dentro de um género que conhece sistematicamente novos argumentos. Não é um enredo brilhante. Há por vezes algumas mudanças mas a trajectória é bem mais comedida no âmbito da investigação. Seremos conduzidos a masmorras onde se resolvem puzzles e é mais evidente um ritmo “thriller”, sem se tornar retumbante. Mais evidente é a cor, música e o tom anime, em diversos momentos da aventura. Os combates dão lugar a um jogo de luz, cor e brilho. A apresentação das personagens é elegante, num misto de glamour e luzes das câmaras. A música que acompanha esses segmentos, tanto durante o jogo como nas curtas de animação que alimentam a história, penetra bem nesse espaço da idolatria pop nipónica, do primeiro ao último momento. As novidades musicais, nesta versão Switch, são no entanto escassas e resumem-se apenas a um novo tema.

Um Encore com mudanças mais ou menos subtis

Se jogaram Tokyo Mirage Sessions em 2016 é provável que ao voltarem a experimentá-lo não encontrem grandes mudanças logo ao começo. Há alterações que chegam a ser subtis, como por exemplo a apresentação das personagens, com um aspecto mais maduro, numa forma de situar melhor o jogo para o ocidente. Por outro lado existem novas ramificações na história, novas personagens auxiliares e música, resultado da inclusão do DLC original, que agora faz parte do jogo completo. Apesar das alterações comedidas e acrescentos, não são de fácil detecção e com efeito pouco alteram o tipo de experiência, em nada mudando a jogabilidade, que no seu cerne permanece inalterada.

2As animações são boas, dinâmicas e coloridas.

A exploração dos distritos de Tokyo atrás enunciados é um prospecto aliciante, ainda que contenha limites. Comprar acessórios e modificar a indumentária redunda numa tarefa de simples alcance. Melhor é a modificação levada a cabo nas armas disponíveis, com efeitos práticos no tipo de ataque e habilidades das personagens. A participação nos combates leva as personagens a adquirem mais experiência, subindo de nível e melhorando o ranking no quadro do estrelato. Os golpes podem ser devastadores, se souberem tirar partido do ataque Sessions, que opera como uma fusão entre as personagens de FE e Tokyo Mirage, abrindo uma janela para um conjunto de golpes de rajada, profundamente danosos no oponente. Já as habilidades ad-lib, de belo efeito visual e musical culminam numa abrangência maior, produzindo efeitos adicionais. Aos golpes especiais acrescem os “duos” uma combinação/aliança devastadora, uma técnica de fácil utilização.

As masmorras, com a novidade proveniente do DLC, jogam a favor da extensão em tempo de jogo. Há um elemento central ligado a cada uma, o que as torna diferenciadas, ainda que a longo trecho haja uma quase reciclagem na forma como as abordamos. A estética minimal pode inculcar uma ideia de vazio ou simplicidade, mas também é uma componente da arte derivativa do sobrenatural. As personagens e bestiário ostentam mais detalhes e uma coreografia musical, sob fortes elementos cénicos, típicos da “idol pop”.

Numa suposta aproximação às mecânicas de Fire Emblem, Tokyo Mirage Sessions não abarca as melhores expectativas. Mais poderia ser feito no sentido de incorporar outros elementos de Fire Emblem. O acrescento do DLC não dá uma nova vida ou rumo ao jogo, é essencialmente o mesmo título da Wii U a ganhar uma nova oportunidade, especialmente depois de Persona 5, um jogo que abriu um novo patamar de excelência no quadro dos jrpg’s e estabeleceu uma fasquia dentro da Atlus. Tokyo Mirage é um óptimo jrpg dotado de um conceito interessante mas sem o brilhantismo e riqueza de um Persona 5.

Prós: Contras:
  • Conceito original, focado na idol pop nipónica
  • Projecção realista dos distritos de Tokyo
  • Banda sonora
  • Qualidade das animações
  • Longevidade
  • Novidades subtis
  • Escasso aproveitamento da franquia Fire Emblem
  • Construção reciclada de algumas masmorras
  • Limites na exploração da cidade
  • Jogabilidade e história aquém de Persona 5
Share

Leave a Reply